Presidente do TCE-MT e servidores presos pela PF sacaram R$ 15 milhões em banco dentro do órgão
Uma investigação da Polícia Federal revelou um esquema milionário de pagamentos suspeitos e saques em dinheiro vivo envolvendo o presidente do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso (TCE-MT), Sérgio Ricardo de Almeida, e servidores da instituição.
O caso veio à tona com a deflagração da Operação Tomada de Contas, em 29 de outubro de 2026, que resultou na prisão preventiva do presidente do tribunal e de outros cinco investigados.
Segundo documentos da investigação e a decisão do ministro Og Fernandes, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Sérgio Ricardo teria recebido R$ 15,4 milhões em pagamentos suspeitos em menos de dez meses de 2025. No mesmo período, foram identificados 150 saques em suas contas, totalizando aproximadamente R$ 15,6 milhões.
As retiradas teriam sido realizadas em dinheiro vivo, parte delas diretamente em uma agência do Sicoob instalada dentro do próprio Tribunal de Contas.
Como funcionava a retirada do dinheiro
De acordo com a decisão judicial, 64 saques foram realizados diretamente nos caixas da agência bancária e outros 86 em terminais de autoatendimento.
A chefe de gabinete do presidente, Roseli Loss, aparece na investigação como uma das principais responsáveis pela execução das retiradas. As movimentações foram identificadas por meio de extratos bancários, relatórios de inteligência financeira e imagens das câmeras de segurança do banco.
Outro nome citado é o de Adriangelo Barros Antunes, servidor do tribunal e ex-cunhado de Sérgio Ricardo. Segundo a investigação, ele seria responsável pelo transporte do dinheiro retirado.
Em um dos episódios descritos na decisão, ocorrido em 14 de outubro de 2025, um homem com características compatíveis com as de Adriangelo foi filmado entrando na agência com uma mochila aparentemente vazia e saindo posteriormente com ela aparentemente carregada, seguindo em direção às dependências do tribunal.
Outros servidores teriam recebido R$ 28 milhões
A investigação também identificou movimentações milionárias envolvendo três servidores do TCE-MT.
Segundo informações detalhadas na decisão do STJ:
Gustavo Fernandes da Silva: teria recebido R$ 15,8 milhões por meio de 144 ordens bancárias avulsas, distribuídas em oito contas de sete instituições financeiras.
Felipe José Glinke: teria recebido R$ 9,9 milhões, sendo R$ 9,6 milhões por meio de 80 ordens bancárias.
Adriangelo Barros Antunes: teria recebido aproximadamente R$ 2,28 milhões.
Somados, os valores chegam a aproximadamente R$ 28 milhões. A Polícia Federal também identificou registros de movimentações e operações bancárias envolvendo os investigados.
Pagamentos fora da transparência
Um dos pontos mais graves da investigação é a suspeita de existência de uma espécie de folha de pagamento paralela dentro do Tribunal de Contas.
Segundo o Ministério Público Federal, os recursos eram transferidos diretamente da conta do TCE-MT por meio de ordens bancárias destinadas oficialmente ao pagamento de fornecedores, mas acabavam chegando às contas de conselheiros e servidores.
Em menos de dez meses, sete conselheiros investigados teriam recebido aproximadamente R$ 48,4 milhões. Entretanto, o Portal da Transparência divulgava apenas R$ 2,2 milhões em pagamentos no período.
A movimentação financeira total considerada suspeita pela investigação chegou a R$ 75,8 milhões em 294 dias.
Operação Tomada de Contas
Deflagrada em 29 de outubro, a operação cumpriu seis mandados de prisão preventiva e 26 mandados de busca e apreensão em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e São Paulo.
Além das prisões, o STJ determinou o afastamento de conselheiros e de outros agentes públicos, além de medidas para preservar documentos, registros financeiros e provas.
A investigação apura possíveis crimes de peculato, corrupção passiva, concussão, lavagem de dinheiro, organização criminosa e inserção de dados falsos em sistemas de informação.
Os investigados não foram condenados e as acusações ainda dependem de apuração judicial. As defesas têm direito ao contraditório e à ampla defesa.
O caso expõe uma situação particularmente grave: o órgão responsável por fiscalizar a aplicação dos recursos públicos em Mato Grosso está no centro de uma investigação que aponta pagamentos milionários fora da folha oficial, saques em espécie e a utilização de uma agência bancária instalada dentro da própria instituição.








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